Jornalista fala sobre luta contra depressão e assegura “é possível passar por isso!”

Uma luta de sete anos. Esse foi o período que o jornalista Marcos Vasconcelos, atualmente repórter e apresentador na TV Borborema (afiliada ao SBT em Campina Grande), lutou contra a depressão. Muitos que o viram sorrindo diante das câmeras não sabem o tamanho da batalha interna que ele travou para estar aqui hoje. Nesta segunda-feira (9) ele participou do programa Revista 101 na rádio Cariri, concedendo entrevista aos jornalistas Silas Batista e Paulo Pessoa, falando abertamente sobre o período mais delicado de sua vida e dando testemunho de que é possível superar a depressão.

Confira abaixo o que disse Marcos Vasconcelos nessa conversa que durou cerca de vinte minutos.

P: O que te marcou mais? O que te deixou a maior lembrança de todo esse período?

R: É uma fase que você passa na vida que vai ser difícil esquecer cada momento. Eu enfrentei a depressão em dois momentos. Você tem uma certa melhora, mas em determinando momento, por conta de um gatilho, você acaba caindo de novo na depressão. Eu enfrentei duas vezes de forma mais severa com uma diferença de cinco ou seis anos entre uma grande crise e outra. Não é um momento fácil pra ninguém viver e é difícil você tentar explicar como é passar por uma depressão. A gente vê na literatura, por exemplo, que a melhor explicação é que é uma dor na alma e eu posso dizer que é realmente uma dor da alma. Você não consegue explicar de onde vem, pra onde vai e nem quando vai passar. O ponto principal é justamente essa sensação de uma dor muito forte, de um desespero avassalador e de você tentar lutar dia após dia contra ele, sem muita gente saber e nem poder saber do que eu estava passando naquele momento, seja por motivos pessoais ou profissionais.

P: É uma doença que gera uma tensão contínua ou você consegue ter algum momento de alívio do acordar ao ir dormir, se é que é possível dormir?

R: Você tocou em em dois pontos interessantes: acordar e ir dormir. São dois pontos primordiais de quem passa por depressão. Primeiro o acordar. Para mim era o momento mais dramático. Depois eu comecei a estudar sobre o assunto e percebi que não era só comigo, percebi que era uma tendência. Você acorda teoricamente bem, até seu cérebro entender o que você está passando. Você acha que aquilo foi um pesadelo e acha que ‘graças a Deus estou livre’, estou bem, até mais ou menos quinze minutos e aí você desaba. Eu acordava bem. Mas depois de um tempo caia no choro e não queria levantar, sair da cama. Queria passar o dia enrolado e não ter contato absolutamente com ninguém. (Pela manhã) É quando seu cérebro da o comando de que o que você está passando é real. É mais um dia que você vai ter que enfrentar.

P: Como faz pra seguir?

R: Primeiro, você precisa se apoiar em alguma coisa. A sua família e seus amigos são fundamentais nesse momento. Um tratamento também é fundamental nesse momento, que não é fácil de você aceitar. Eu fiz sete anos de um tratamento psicológico e um bom tempo de tratamento psiquiátrico. Eu tive resistência de ir para o  psiquiatra e isso acontece com muita gente. E ainda dizia eu não vou tomar remédio porque eu não quero uma felicidade de plástico. E foi até o momento que deu, porque chegou um momento que não dava mais, que eu não tinha condições físicas, porque emagreci muito (perdi cerca de 15kg). Eu chorava pra comer porque eu forçava (por entender que precisava daquilo) mas a comida não fazia efeito algum. O tratamento é fundamental, tanto o psiquiatra quando a psicologia.

P: Como foi no dia que você acordou e não voltou a desabar?

R: A palavra curado acaba sendo um pouco pesada. Você tem que conseguir aprender a conviver com a depressão. Existe uma coisa chamada gatilho. Quando eu fui, aos poucos, percebendo quais eram meus gatilhos, como por exemplo escutar uma música e parar o carro e começar a chorar, então eu comecei a mudar isso. Eu comecei a conversar comigo. Teve um dia que eu parei na frente do espelho chorando e disse pra mim mesmo ‘cara, não dá’. Na época que eu apresentava o Globo Esporte eu ia para o banheiro, chorava o que tinha pra chorar, lavava o rosto e ia sorrir na frente da câmera, porque era a questão da necessidade. Então com o tempo eu aprendi a conversar comigo mesmo. Seu cérebro acaba lutando contra você; você cria situações que não existem e precisa aprender a fazer um exercício de distinguir o que é do que não é realidade. Isso te ajuda a evitar os seus gatilhos, porque é aquilo o que vai te levar de volta.

P: Como você se apoiou na sua família e amigos? Qual a importância dessas pessoas nesse processo?

R: Todo mundo que está ao seu redor é fundamental dentro da sua importância na sua vida. Mesmo que ela não saiba fazer absolutamente nada. Mas só o fato de você ser acolhido por alguém, isso já muda muita coisa. Por exemplo, tem uma irmã minha que todos os dias quando eu acordava que eu corria pra lá, ela já sabia o que era. Eu passava quarenta, cinquenta minutos só chorando, mas eu tinha um ombro. Eu tinha uma necessidade de conversar com as pessoas. Saia com amigos para dar uma volta de carro e conversava muito em uma forma de tentar ocupar a minha mente e tentar colocar aquilo que eu sentia pra fora de alguma forma. Só de lhe apoiar e te de escutar isso conta muito. Isso porque você acaba escutando de muitas pessoas coisas absurdas. Por exemplo, ‘isso é falta de Deus’… isso machuca pra caramba. E aí você entra ainda mais em desespero, porque você pensa ‘quer dizer que eu tô sentindo tudo isso e é besteira, não vale de nada’. Então se você tiver uma rede de apoio com você, isso te conforto e você pode ter alguém. Eu não cometi uma loucura por conta de um amigo que eu estava comigo. Eu acordei nessa crise que relatei, fui pra casa de um amigo justamente para ficar conversando, fiquei até de madrugada porque o remédio não fazia efeito. Cinco e meia da manhã eu estava acordado. Oitavo andar, janela aberta… O cérebro trabalha totalmente contra. Vem aquilo ‘vamos se livrar’… porque o sofrimento é muito grande. Mas foi onde eu tirei forças e deu uma mãozada no coitado e ‘ei, acorda. Vamos conversar’. É muito intenso é uma dor muito forte e que só sabe quem passa.

P: Que mensagem você deixa para quem está enfrentando esse problema? 

R: Não desista! Em hipótese alguma. Sempre respire um pouquinho antes de qualquer coisa. Olhe ao redor o que você tem. Sempre procure distinguir o que é realidade, o que é fantasia. Se apoie naquilo que você tem perto de você. Não desista, se apoie e saiba o principal… é possível passar por isso. Tenha paciência e encontre forças. Eu estou aqui porque é possível. Procure profissionais, no público ou no privado, e tenha paciência porque passa, tudo passa.

Paulo Pessoa Autor

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